Seguir indicações de medicamentos ou suplementos feitas por influenciadores digitais pode parecer um gesto simples, mas envolve riscos reais à saúde. O alerta é do farmacêutico e professor Paulo Arrais, que destaca os perigos da automedicação e do autodiagnóstico, práticas que ganharam força com a popularização das redes sociais e das ferramentas de inteligência artificial.
Influenciadores não conhecem o histórico de quem segue suas dicas
Segundo Arrais, o principal problema é que criadores de conteúdo desconhecem as condições de saúde, o estilo de vida e as necessidades individuais de cada pessoa que acompanha suas publicações. Um produto eficaz para alguém pode ser inadequado - e até perigoso - para outra pessoa. "É um risco muito grande. Eu sempre digo e repito, é muito importante acessar o médico para que ele possa fazer uma avaliação antes de você usar até mesmo uma coisa que essa influência esteja indicando", afirma o professor.
O alerta inclui também o uso de medicamentos sem necessidade real, como ocorre em casos ligados a fins estéticos e de emagrecimento. Para Arrais, essa prática pode representar uma agressão ao organismo e provocar consequências graves, já que vitaminas e suplementos divulgados nas redes sociais também exigem avaliação antes do consumo.
Dose, tempo de uso e interações pesam tanto quanto a escolha do remédio
A automedicação ocorre quando alguém utiliza medicamentos por conta própria, sem prescrição médica ou odontológica. De acordo com o professor, a prática aparece com frequência em situações cotidianas - como dores - mas também envolve suplementos, vitaminas e até antibióticos. O problema não está apenas no produto escolhido: dose, tempo de uso, apresentação e forma de administração influenciam diretamente os efeitos no organismo.
Há ainda o risco de interação entre diferentes medicamentos e de reações adversas em quem já desenvolveu sensibilidade a determinada substância. O uso excessivo e prolongado de analgésicos e anti-inflamatórios preocupa especialmente Arrais, que associa a prática a problemas renais quando os sintomas são tratados sem investigação da causa. "Usos muito prolongados, eles, às vezes, são muito prejudiciais", alerta.
Diagnóstico por IA ou pela internet também é desaconselhado
Antes de recorrer a um medicamento por conta própria, muita gente tenta identificar o problema em pesquisas na internet ou em conversas com ferramentas de inteligência artificial. Para Arrais, essa prática é arriscada porque a avaliação médica envolve exame físico e investigação detalhada dos sintomas - etapas que a IA não realiza. "Para você ter um diagnóstico, médico no caso, o médico precisa fazer várias perguntas, fazer uma avaliação física, e isso a IA não faz. Ela está respondendo com base no que você está dizendo", explica.
O professor cita ainda o efeito rebote: o uso frequente de analgésicos para dor de cabeça persistente pode fazer com que a própria dor volte a se repetir, levando a pessoa a aumentar doses ou frequência sem necessariamente tratar a causa real do problema.
"Farmacinhas" domésticas e o papel do farmacêutico na prevenção
Manter remédios guardados em casa também favorece a automedicação. Segundo Arrais, as chamadas "farmacinhas" domésticas costumam reunir sobras de tratamentos interrompidos antes do prazo recomendado, reaproveitadas sem investigação da causa quando sintomas semelhantes reaparecem - uma atitude que pode mascarar doenças que exigem avaliação médica. O armazenamento inadequado, em locais úmidos como o banheiro, também compromete a qualidade dos produtos, e crianças correm risco de ingestão acidental.
Arrais reforça o papel do farmacêutico na prevenção desses riscos, inclusive no caso de remédios vendidos sem receita. "Os medicamentos isentos de prescrição, de venda livre, procuram o farmacêutico para receber as orientações corretas. Mesmo que você ache que saiba, procure o farmacêutico", orienta. Ele integra o Grupo de Prevenção ao Uso Indevido de Medicamentos, criado em 1990 pela professora Helena Lutécia Luna Coelho e vinculado à Universidade Federal do Ceará (UFC), que mantém um Centro de Informação sobre Medicamentos para esclarecer dúvidas da população pelo telefone (85) 3366-8293.