O barulho em torno da agenda excessiva do circuito ATP vinha ganhando força havia tempos, e ninguém foi mais incisivo nas críticas do que Carlos Alcaraz. O espanhol, ex-número 1 do mundo, não escondeu sua frustração com o desgaste físico imposto pelo calendário e, em entrevistas recentes, cobrou publicamente uma intervenção da entidade diante da sequência de lesões que afetou nomes de peso do circuito. Parece que o recado chegou: o presidente da ATP, Andrea Gaudenzi, anunciou uma série de mudanças estruturais para a partir de 2028, incorporando também pautas defendidas há anos por Novak Djokovic.
Carta aberta detalha reformulação do calendário
Em carta publicada no site oficial da ATP, Gaudenzi apresentou uma proposta abrangente para reorganizar a temporada, com o objetivo declarado de garantir que os melhores tenistas disputem os Grand Slams e os Masters 1000 - os eventos que mais interessam ao público. "Os jogadores continuam livres para montar seus próprios calendários, e os maiores torneios do esporte são onde se concentram a competição mais forte, os pontos de ranking e as recompensas financeiras", escreveu o dirigente. Segundo ele, alinhar premiação, ranking e calendário deve ajudar os atletas a render no mais alto nível justamente nos palcos mais importantes.
Um dos pontos centrais da carta é a ideia de que os jogadores se sintam "incentivados", e não "obrigados", a competir o ano inteiro - discurso que conversa diretamente com o que Alcaraz disse recentemente, durante a Laver Cup, ao admitir o quanto sentia falta de jogar tênis por prazer, e não por necessidade.
Masters 1000 de 12 dias segue como ponto sensível
O formato estendido dos Masters 1000, com duração de 12 dias, continua sendo a medida que mais incomoda os jogadores, Alcaraz incluído. A carta confirma ainda a criação de um décimo torneio Masters 1000, na Arábia Saudita, a partir do calendário de 2028 - novidade que deve gerar reação dividida entre os tenistas. A urgência da reforma ganhou peso depois de uma temporada em que Alcaraz e Jannik Sinner, os dois maiores nomes do circuito, desfalcaram boa parte do calendário por lesão, chegando a desfalcar Grand Slams.
Pontuação e dinheiro como ferramentas de incentivo
Gaudenzi mirou duas frentes principais para tornar os grandes torneios mais atrativos sem forçar a mão dos jogadores. A primeira é o sistema de pontuação: a proposta prevê mais pontos de ranking nos Grand Slams e Masters 1000, inclusive nas fases iniciais, reduzindo a pressão para emendar torneios após eliminações precoces.
A segunda frente é financeira. A disparidade de ganhos entre o topo e a base do ranking é expressiva - enquanto um tenista do nível de Alcaraz fatura milhões mesmo afastado por lesão parte da temporada, jogadores fora do top 100 somam dezenas de partidas entre Challenger e ATP para alcançar uma fração desse valor. Para atacar esse desequilíbrio, a ATP propõe ampliar o bônus geral do circuito e criar um novo fundo de bonificação voltado aos 250 primeiros do ranking, além de elevar a remuneração total distribuída no Tour. A ideia é dar aos jogadores de ranking mais baixo margem para jogar menos e focar nos eventos de maior peso.
Djokovic e a defesa histórica dos jogadores de ranking mais baixo
Cartas abertas não são novidade vinda de Gaudenzi: ele adotou prática semelhante ao assumir o cargo em 2020, quando propôs o piso salarial mínimo da ATP, a divisão de lucros e o próprio formato de 12 dias para os Masters - este último, até hoje, alvo de críticas. A nova carta também menciona um fundo de pensão para apoiar jogadores na aposentadoria ou na transição de carreira, benefício defendido há anos por Djokovic.
O sérvio sempre foi um dos críticos mais contundentes da desigualdade de ganhos no circuito, apontando que tenistas de ranking mais baixo frequentemente não têm condições financeiras para contar com treinador ou fisioterapeuta fixos. Em coletiva durante o torneio de Dubai, em 2023, Djokovic resumiu: "O topo do jogo está bem, claro. Não posso reclamar por mim. Mas falo em nome de todos os jogadores de ranking mais baixo que lutam para sobreviver financeiramente. Acho que esse é o principal objetivo."
Dinheiro e calendário caminham juntos: jogadores mais bem pagos têm liberdade para evitar torneios ATP 500 ou 250 semana após semana, algo que a base do ranking não pode se dar ao luxo de fazer. As mudanças propostas por Gaudenzi sinalizam disposição da ATP em atacar esse problema - mas implementá-las de forma a agradar o conjunto dos jogadores ainda é um desafio em aberto.